quarta-feira, 26 de março de 2008

o coração das trevas

Não me lembro de um único momento e felicidade genuína na vida. Tive 'glimpses' desta felicidade em dois momentos. No Verão de 89 quando o tipo que partilhava o quarto comigo me disse, de uma maneira completamente não homossexual, “meu (ainda se usava o 'meu'), tens uma pila fixe, em termos de tamanho”, e em 2007 quando o Tello marcou aquele livre ao Porto. Infelizmente o Tello não pode estar sempre a marcar livres e o G. não sei onde está.
Nas escolas dos ricos não se brincava a quase nada. Das poucas vezes que propus brincar aos índios e cobóis fui olhado com desconfiança e indignação. Fui ao conselho directivo. Passei as quartas à tarde a limpar as mesas. Segundo eles, “os índios não existiam” e a terra acabava ali pouco depois de Vila Franca de Xira onde só havia um abismo e a condenação eterna. Ainda tentei argumentar que o Porto, como equipa, também não existe, é uma invenção dos media. Mas não resultou. Como invejava os tipos da Lumiar I, que tinham pretos na escola e podiam brincar aos assaltos na linha de Sintra, ou os do Colégio Alemão que brincavam à invasão da Polónia, ou os do colégio judeu que brincavam ao Holocausto , nos intervalos do almoço, e às câmaras de gás nos intervalos pequeninos, para despachar, ou os da secundária de Chelas que brincavam aos polícias e ladrões, com polícias de verdade. Nós tínhamos apenas uma construção em madeira com um pau ao meio para deslizar. Da primeira vez tive medo. E fingi que gostava mesmo de estar lá em cima. Era lixado porque também tinha medo das alturas. Depois toparam e foram chamar a Esperança, que era vigilante e a primeira mulher que vi sem soutien (o que não contou porque estava a queimar-se nos mamilos com o faiscador), e ajudou-me a descer. O Seiça gostava de descer naquele pau mas depois confessou que era o atrito “lá em baixo” que tornava o processo tão bom. Depois tivémos uma bola furada que era fixe para marcar os livres em jeito, que a mim doíam-me os pés de mandar biqueiros. Tínhamos de a dividir por quatro turmas. Era nossa às segundas o dia todo e às sextas de tarde. Eu ia à baliza ou a defesa. Porque era “muito bom a atrapalhar”, segundo o Jorge, que me tratava por “Canina” e um dia me partiu o coração quando disse: “hoje não vou poder andar contigo. Vou ouvir a bola”. Era uma quarta-feira e o Sporting jogava para as competições europeias com um clube qualquer que aprendi a odiar. Quando se tem oito anos, isto marca-nos como quando se tem vinte e nos dizem “não és tu, sou eu”. O Jorge tinha uma daquelas coisas de limpar o suor nos pulsos. Do ténis. Fedia a esterco. Enojava-me. Mas o Jorge jogava bem futebol e por isso tive de deixar que me limpasse também o suor quando jogámos contra a 3ª classe.
Felizmente mudei de escola no ano seguinte. Julguei que era desta que ia ser feliz mas os computadores repeliam as miúdas. O Spectrum ainda não tinha webcam e messenger para se poder adicionar miúdas dos Açores e de Santo António dos Cavaleiros que se despem com duas ou três linhas de conversa. Não. Antes os computadores metiam nojo às miúdas. Só quando já era tarde é que percebi. A minha empregada, a que cheirava mal, até dizia “os seus (nós) ficam em casa. É ao contrário do meu que passa o tempo na rua”. Na rua é que se esfolam joelhos e se infectam feridas e se cospe nos velhos que passam debaixo das pontes. Eu até revistas comprava. Cada vez que saía um jogo bom, levava-a para a escola para mostrar ao Careca que tinha sempre os melhores jogos (constava que o pai estava cheio de pasta por causa dum negócio qualquer com pudins) e quando não tinha inventava. Dois deles marcaram-me. Um que nunca vi e outro que nunca entrou. O “Past, present and future”, que não usava teclas. O Spectrum dele tinha um botão especial onde carregava e ditava ordens ao computador através de um buraquinho. “Em inglês ou em português?” - perguntei eu. “Em português, claro” - disse ele antes de picar a bola para alguém. O Careca não jogava nada. Mas era muito bom a centrar, a picar a bola e a correr os mil metros. Foi a primeira pessoa que ouvi a dizer “pica, pica”, mas o tipo centrou em jeito, alguém cortou para canto e perdeu-se um bom momento de futebol. Constava que o Careca tinha genes do Gabriel Alves, da parte do pai – que um dia foi lá à escola aviar num nhonhó que era colega do Gustavo e que pregou uma rasteira ao Careca que foi com a cara de rojo meio corredor. Até a Rata, que era professora de francês, ia levando na tromba - mas nunca se provou nada (da parte do Gabriel Alves, porque a Rata a quase levar na tromba vi eu com estes olhos que a terra há-de comer). Quando fui a casa dele, o buraco desapareceu. Tinha ido para arranjar. Só o buraco. Era um buraco de desencaixar, segundo disse. E uma desculpa qualquer que não sabia onde estava o jogo impediu-me de o jogar e esmagou-me o maior sonho dos 10 anos. Mais tarde, constava que tinha folhas de Excel com as equipas todas da primeira e da segunda divisões onde anotava os resultados dos jogos entre elas e fazia previsões e conhecia pessoalmente jogadores como o Marlon Brandão, o Bobó, o Éder Bonfim e um brasileiro com o enigmático nome de “Sujeito”. Hoje acredito que seja uma pessoa bem sucedida e viva na Portela onde vai ao sábado comer os croissants com chocolate do centro comercial com o mesmo nome.
Tentei, depois, ser amigo do Domingos que tinha “mil e não sei quantos jogos” e o “Paradise Café”. Os detractores do Domingos diziam que ele não sabia jogar futebol, que “só tinha era pastilho”. Mas eu não. Eu acreditava nele. O Domingos passava-me a bola em pleno jogo, escolhia-me para a equipa dele antes da Marta Sofia, uma das que viu a pila ao Cachucho (quando ele ainda não era Cachucho mas simplesmente João Miguel), convidava-me para ir a casa dele onde havia cigarros e cerveja. O Domingos já tinha fumado e apalpou a Madalena na festa de anos dela, quando estava escuro. Eu também lá meti a mão mas acho que apalpei o Chinês que era um tipo que gostava que lhe mexessem por dentro das calças na parte “que até sabia bem”. Tinha uma namorada (o Domingos, não o Chinês) que “ficava muito bem de óculos e ainda melhor sem eles” e era inglesa e ele falava espanhol. Uma vez até disse a um tipo de uma loja em Madrid “vai para la mierda”, segundo me contou, na casa de banho ao pé do refeitório onde um tipo mais velho que eu me acusou de estar a “bater à punheta”. Isto foi em alturas diferentes, não foi enquanto o Domingos me dizia “sim, porque tu sabes que eu falo muito bem espanhol”. Na altura julguei que uma punheta fosse um instrumento qualquer. Tipo um pífaro, mas verde e com um sobe e desce em baixo alterar os tons. Ainda assim achei que alguma coisa não fazia sentido. Quase tanto como quando o Luís Filipe, que ditava as regras do que é que valia mais em termos de gestos, me disse que “esticar o dedo do meio já não era o que valia mais”, agora era esticar os cinco dedos da mão na horizontal. Isso até vencia o espelho, que era mostrar a palma da mão a quem nos esticasse o dedo do meio, porque reflectia. Eu, que acreditava sempre em tudo, estiquei os cinco dedos a um gajo da 4ª classe e ele não me fez nada e foi-se embora. Senti que tinha ganhado (não me chateiem. Existe que eu já perdi uma aposta por causa disto). Por agora, pelo menos.
O Domingos pedia-me as revistas emprestadas e eu dizia que não. Achava que era uma boa técnica para sermos amigos. Aposto que ele pensava “se eu sou dos fixes e ele não me empresta as revistas à primeira é porque secalhar ele ainda é mais fixe que eu”. Quase que fomos amigos mas depois ele chumbou. E as pessoas que chumbavam metiam-me nojo. E mais um coração partido.
Usei esta técnica anos mais tarde com as miúdas. Queria que pensassem que se não lhes ligava era porque devia ter qualquer coisa. Mas não funcionou. Depois tentei a do olhar fixamente até incomodar. Resultava às vezes mas acho que era porque pensavam que eu as devia conhecer. Um dia quando uma me virou costas e a minha mãe foi chamada à escola, deixei de usar. Ou era isso ou comprimidos para a libido. Hoje sei que as gajas cheiram rebarbados que só querem foder à distância. Não querem foder à distância. Querem foder ao perto. As miúdas é que os cheiram à distância. Aos rebarbados, como eu. E isso mete-lhes nojo. A mim também mete mas não posso fazer nada. Quando me aumentarem, irei procurar ajuda. “Senhor doutor, estou doente. Ajude-me a sentir isso do amor. Isso de correr nos campos de girassóis e ser bom. Isso de não se querer foder todas as miúdas com que me cruzo na rua”. Hei-de sentir o que é isso do amor. Parece que quando se sente o amor e se vai ao cu, não dói.
A partir dos catorze começaram as cenas com as miúdas e o meu coração foi esmagado e pontapeado por essa rua amarga que é a vida. Nunca mais tive um momento de felicidade. Até ao Tello. Mas como diz o Cláudio Ramos, “se magoa é porque está duro e a vida só é dura para os moles”.
Como sempre fui muito exagerado, bloqueei. Quando quero uma coisa, levo-a até ao fim. E hoje tenho um buraco negro no lugar do coração.

26 comentários:

Guima disse...

depressao

R2D2 disse...

Esse buraco negro no lugar do coração é uma cena que se "apanha" no Técnico. Penso que se tirares agora um curso de sociologia, ou mesmo de Reiki, essa cena passa.

Crónicas Urbanas disse...

brilhante

Hermes disse...

A minha pergunta é : O que tem o Stevie a ver com isso ?

Catarina disse...

... rectalis.

tiagugrilu disse...

Muito bom. Também tive uma professora de Francês chamada Rata, porque andava a fazer quimioterapia e por isso caiu-lhe metade do cabelo, mas nós não sabíamos. Será a mesma?

Nuninho:| disse...

o facto de tu acreditares que ele realmente teve uma professora de francês a quem chamavam de Rata é triste:|

s3c0 disse...

triste é ver o Técnico referido nestes comentários e constatar que surge relacionado com a palavra depressão... o que na realidade acontece é uma coincidência que ocorre vezes a mais...

Anónimo disse...

Olha...gostava de apanhar isso...

M.J.

anatcat disse...

:|

Emprestas-me as revistas?

Pulha Garcia disse...

Excelente texto, Juvenal. Estás a atingir um topo de forma como o Tello antes de sair do Sporting.

M. disse...

Foda-se, que final :)

juvenal, o anormal disse...

por acaso havia mesmo uma professora chamada Rata na minha escola. mas não tive aulas com ela. duvido que andasse em quimioterapia.

Anónimo disse...

Não paras de surpreender! Invejo-te! Ouviste? Invejo-te meu cabrão!Tens uma memória prodigiosa...Só te quero fazer lembrar outra história com a Madalena que deu pano para mangas: calhou um dia apalparmos a Madalena (havia alguma coisa para apalpar?) no corredor do 5º/6ºano. Eu, o Seiça, o Domingos e o Goya. Com o Goya houve bronca. Ela manda-lhe com o cesto do lanche às trombas e não é que ele se vai queixar à mãe? E não é que a mãe do Goya apresenta queixa à Directora de turma? E não é que às tantas somos todos envolvidos naquela questão por causa dos dentes (saidos para a frente) do Goya? Que vergonha! Um filho de uma professora a apalpar colegas...Abraço

Anónimo disse...

Brilhante! Mas duvido quanto à presença do buraco negro no lugar do coração, porque quem fala assim não tem qualquer problema com os sentimentos.
Se falas por falar, óptimo.
N.B.

ariana luna disse...

Já pensaste em escrever argumentos para novelas venezuelanas?

Anónimo disse...

got a big plan, this mindset maybe its right
at the right place and right time, maybe tonight
and the whisper or handshake sending a sign
wanna make out and kiss hard, wait nevermind

late night, in passing, metioned it flip to her
bestfriend, it's no thing, maybe it slipped
but the slip turns to terror and the crush to like
when she walked in he froze up, leaves it to fright

its cute in a way, till you cannot speak
and you leave to have a cigarette, knees get weak
an escape is just a nod and a casual wave
obsessed about it, heavy for the next two days

it's only just a crush, it'll go away
it's just like all the others it'll go away
or maybe this is danger and you just don't know
you pray it all away but it continues to grow

i want to hold you close
skin pressed against me tight
lie still, and close your eyes girl
so lovely, it feels so right

i want to hold you close
soft breasts, beating heart
as i whisper in your ear
i want to fucking tear you apart

then he walked up and told her, thinking maybe it'd passed

and they talked and looked away a lot, doing the dance
her hand brushed up against his, she left it there
told him how she felt and then they locked in a stare

they took a step back, thought about it, what should they do
cause theres always repercussions when you're dating in school
but their lips met, and reservations started to pass
whether this was just an evening or a thing that would last

either way he wanted her and this was bad
he wanted to do things to her it was making him crazy
now a little crush turned into a like
and now he wants to grab her by the hair and tell her

i want to hold you close
skin pressed against me tight
lie still, and close your eyes girl
so lovely, it feels so right

i want to hold you close
soft breasts, beating heart
as i whisper in your ear
i want to fucking tear you apart

Tear you apart (axo q este titalo ficava melhor) rsrs

M.J.

L. disse...

olha esta:

era um casal tão feio, tão feio, que na hora de ter filhos preferiram adoptar.

AEnima disse...

É preciso pinta para contar banalidades com piada.

Anónimo disse...

foda-se. estou estupefacto.

Anónimo disse...

não me lembro do Domingos. Mas a Rata, o Seiça, o cachucho e os demias estão todos bem presentes!!!

Anónimo disse...

Não conheço os personagens, mas 'tá brilhante !

(Se tens o teu buraco negro, manda-o arranjar)

Liane disse...

A Rata......essa, lixou o meu cunhado!! Não é por ser meu cunhado, mas ele não merecia!

Evil Genius disse...

Dessa palhaçada toda, saliento 2 tópicos de extrema felicidade que também me são comuns: O Tello a sodomizar uma nação inteira que é o Porto, e o Spectrum, a sodomizar um fedelho que era eu. "R Tape Loading Error 0.2". Quanto a ratas, só muitos anos mais tarde... Mas antes da cena do Tello. Não muito antes. Mas antes.

Anónimo disse...

Cabrão, essa receita nunca falha pois não?!

Anónimo disse...

Apetece-me dar-te mimos e fazer-te coisas fofas, do género aconchegar-te na cama depois de um copinho de leite quente. Bebé...