sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

o anjo exterminador

Platão nasceu em Atenas, provavelmente em 427 a.C. e morreu em 347 a.C. um ano após a morte do estadista Péricles. No entretanto, viveu. Até porque não havia assim mais nada para fazer. Só havia areia e muitos monumentos em empedrado. E a pessoa não podia ficar só em casa deitada no sofá a ver um José Carlos Malato, um Fernando Mendes ou até um Manuel Luís Goucha.
Platão acordava por volta das nove da manhã. Quando o sol surgia já por cima da Acrópole e lhe batia na cara com a pele bem curtida. No quarto pequeno que alugava em frente do Partenon. Num apartamento dividido com Aristófanes, o Clemente e Heráclito, o Trambolho. A grande vantagem de se andar de lençol, de linho da Pérsia, é que se podia dormir vestido e depois era só dar um nó, não fosse aquilo soltar-se e ficar ali com a cena a abanar como o Capucho quando jogava em Inglaterra e ia para os pubs fazer *jiggy* *jiggy* para as barmaids, e calçar as chinelas de pele de boi (o Platão, não o Capucho) que estavam muito na moda em 399 a.C. e a pessoa estava pronta para sair de casa. Descia para um copo de leite de cabra e uma salada de repolho, por três dracmas, na tasca de Hesíodo, o Coxo, promoção de pequeno-almoço alargado, que perguntava sempre “num platinho ou num platão?”. E ria-se muito desta boa piada que chega até nós vinda directamente da Grécia antiga, passando pela Grécia do meio até à Grécia actual onde já não se passa nada a não ser ser (é de propósito) um sítio fixe para fazer Erasmus e também para quem gosta de pintelhos como o Mário. Crespos. Isto tudo em grego antigo porque ainda não havia o grego moderno nem o inglês que sempre dava para a tradução se houvesse um tradutor ou um comentador daqueles que comenta por cima mas deixando por baixo o som original assim em baixinho. Atirava quatro dracmas para cima do balcão e dizia “gualda mas é o tloco e lava o platinho aqui pala o Platão”. E riam-se os dois em grego antigo, αηαηαη, desta boa piada que chega até nós vinda directamente da Grécia antiga, passando pela Grécia do meio até à Grécia actual.
Saía de novo para as ruas de terra vermelha de Atenas. E descia a alameda, ladeada por árvores que costumam ladear as alamedas, até à Academia onde ensinava várias coisas. Logo pela manhã, era a Alegoria da Caverna. Platão entrava, envergando o seu lençol de linho persa e dizia “os senhores fazem o favor de se sentar”. Pedia a Aristóteles, o seu discípulo favorito, que lhe desse um beat (pum ptch pum pum ptch, feito com a boca e assim as mãos à frente meio em concha) e começava “e para todas as minhas bitches aqui na casa deixem-me ouvi-los a dizer ióóóóoooo oooo!” e o auditório todo “ióooo ooo!”. E ele “e quem ainda está dentro da caverna diga ió ió ióoo!” e parte do auditório dizia “ió ió ióooo”. “E quem já está assim mais um bocadinho para fora da caverna e já nota assim umas formas mais ou menos contra a luz, deixem-me ouvi-los a dizer ióóóooo ooooo!”. E uma porção mais pequena do auditório dizia “ióooo ooo!”. “E quem já está completamente fora da caverna e consegue perceber que as sombras são feitas por homens como nós e mais além todo o mundo e a natureza e esse mumbo jumbo que eu inventei para ser lido mais tarde, deixem-me ouvi-los a dizer ió ió ió ió ióoooo!”. E apenas o Sócrates, que se mantinha na última fila, avaliando o seu discípulo Platão, dizia “ióoo ooo”. E todas as cabeças se viravam e cochichavam em grego antigo “é o Sócrates, man!”. E o Platão dizia “lemme hear for ma main man Sócrates in da hoooouse”. E o Sócrates levantava-se, metia os dedos em W voltados para baixo, aproveitando o beat do Aristóteles, descia as escadas rappando “e para todos os meus bois aqui na Grécia Antiga, pode-se foder putos no cu, não há espiga, se custar um cói, metam óleo, e vão logo ver que não dói, e a gasolina é mais cara que o gasóleo” (o Sócrates estava muito além do seu tempo, ainda hoje é o responsável pelo preço da gasolina ser superior ao do gasóleo). E depois todos em coro a fazer meio moinho com os braços “e esta é a aula da Alegoria da Caverna, vão p'ra casa, cuidem da dama, porque se não vão ter a bófia à perna e é o Homero que vos vai levar prá cama”. E acabava com muitos “chequirauts” e “put yer hands togetha for my home boy, Platão” e os discípulos a roçarem-se no carro de bois do Sócrates em mini-lençóis e correntes com banho de ouro como aquelas que se vendem em Albufeira.
Antes do almoço filosofava-se um bocado. No corredor que ia da secretaria até ao átrio da Academia onde estava o segurança que tinha assim cara de poucos amigos e que realmente tinha poucos amigos. Não como eu, que tenho cara de muitos amigos mas tenho poucos. Até há uns que preferem arranjar amigos novos porque parece que eu não chego. E vinha um e dizia “se todos os homens são mortais, se Sócrates é mortal, então todos os homens são Sócrates” e vai outro e dizia “mas e se Platão tem um lençol e a minha cama também, então Platão é a minha cama” e regozijavam-se todos e saltavam ao eixo mas com cuidado para não haver *jiggy* *jiggy* involuntário. Ao contrário do Capucho quando foi jogar para Inglaterra e fazia *jiggy* *jiggy* de propósito.
O almoço era na cantina. Prato único. Uma sopa de grão-de-bico, uma saladinha de batata com azeite, cebolas fatiadas, sumo de limão e vinagre e uns souvlakis com arroz malandrinho. E trocavam-se ideias sobre o pensamento platónico. Não raras vezes, apaixonavam-se mas nem assim de querer ir para a cama, era só de estar, era uma coisa que vem cá de dentro e depois a pessoa não sabe explicar. E discutia-se a essência das coisas, a sua imutabilidade, as coisas que nos afectam os sentidos e os Jogos Olímpicos, onde os homens participavam nus, o que agradava sobremaneira a Sócrates (o filósofo, não o nosso PM *vénia seguida de gesto rodopiante com a mão direita assim mais ou menos como quem tira um chapéu imaginário e espera arranjar um emprego aí numa fundaçãozinha qualquer para não ter de fazer nada o dia todo e poder passar o dia no gmail a teclar com as bitches e ainda ser tratado com cortesia “como está, senhor doutor director presidente da Fundação?”*).
À tarde era os diálogos. Como não havia blogs e a pessoa não podia fazer posts “ele disse/ela disse” ia-se com um bloco de papiros ali para debaixo de um carvalho escrever “Sócrates disse/Glauco disse”. Normalmente sobre temas profundos. E diziam-se frases como “alea jacta est”, “e pluribus unum”, “só sei que nada sei”, “ser ou não ser”, “cinzas, pó, nada”, “quem se mete com o guarda-freios é moralmente responsável pelo acidente” e muitas outras que viriam a ser imitadas e copiadas, anos mais tarde, por filósofos, dramaturgos, a minha avó, empresas de transportes ou clubes de futebol de merda.
Passo a exemplificar:
(isto é tudo em grego antigo mas para melhor compreensão, fiz assim uma tradução para português)
Sócrates: porque vai-se a ver e se for assim com muito jeitinho, a pessoa percebe que a Terra é que é vai e gira em torno do Sol. Assim mais ou menos como tu quando vês o Parménides, o Incompetente e ficas toda molhada.
Glauco: então mas se a pessoa quando olha para o Sol e vê que ele se está a mover e vens-me tu agora, mulheri, dizer-me que é a terra que se move? 'tás parva?
Sócrates: ó mulheri, eu já te disse que isso é do Copérnico. A gente aqui 'tá muito mais atrasadas e temos de falar sobre o mundo inteligível e o mundo sensível e mais a caverna e mai' não sei o quê.
Glauco: da minha caverna sei eu o que é tu querias. Mas tira lá os carneiros da chuva porque a única sombra que entra aqui na minha caverna é a sombra do Aristóteles.
E depois havia também umas tragédias que metia coros e era sempre tudo muito trágico e eu até li algumas por causa de gajas que queria comer. As coisas que um gajo faz. Às quartas-feiras depois da escola, até apanhava o 47, que não me dava jeito nenhum, só porque lá ia uma gaja que eu queria. E depois voltava a pé para casa, a chorar por dentro, porque ela não me ligava.
Mas Platão estava acima disto tudo. Sabia que ia ser grande e que as pessoas iam falar dele no futuro. Como não era bom em prosa, escrevia estes diálogos porque assim não era preciso acção nem descrições. E não era preciso saber nomes de árvores, nem adjectivos, nem muitos sinónimos. Bastava mandar umas bocas e depois o outro respondia e expunha as coisas como as queria dizer. E depois vinha com teorias sobre ideias que já existiam e que a pessoa as tinha aqui dentro e depois quando se olha e se pensa parece que até a alma fica mais clara mas não é nada disso. A pessoa é que já tinha tido contacto com as ideias. Lá no mundo delas. Antes de nascer. E depois dizia frases para as pessoas mais tarde dizerem, quando estão à espera do autocarro ali por baixo do viaduto que passa mesmo ao pé do Colombo “e olha, como dizia Platão, é possível descobrir mais sobre uma pessoa numa hora de brincadeira do que num ano de conversa”. Essa é que é essa e depois vira-se assim as costas muito de repente e vai-se embora em passo rápido. Ou entra-se no autocarro.
Platão regressava a casa para jantar. A mulher cozinhava-lhe carneiro com batatas cozidas. E jogavam à mímica dos famosos. Mas como só havia três filósofos realmente famosos (e um deles era o próprio Platão), o jogo esgotava-se rapidamente até porque o Platão só sabia fazer dele próprio, era assim como um Al Pacino da Antiguidade. Se aparecesse por lá algum discípulo, ainda havia tratamento de cu. Uma maneira, diziam eles, de passar o conhecimento. E só Deus sabe como eu tentei convencer as minhas colegas de Faculdade disto. Que podiam aprender muito mais se se baixassem para apanhar as canetas que, invariavelmente, caíam logo ali, como quem tem de se baixar ao ponto de conseguir fazer o ar entrar e sair. Se não, contentava-se com a mulher, que até era boa para os padrões da altura. Não se ligava muito aos pêlos nas pernas e na cara. Até porque aquilo é a Grécia e, como se diz por lá, quem tem pêlo é que consegue metê-lo. Desconhece-se o autor desta frase. Mas duvido que seja Platão. Quanto a esse, sonhava com o futuro. Sonhava vir a ser estudado nas escolas. Que os seus diálogos chegassem à Era da internet. Porque na internet nada se perde. E é com isso que conto. Que, se por algum azar enorme eu morrer, este blog se mantenha aqui e as pessoas venham cá e digam “tão boa pessoa que ele era e agora não passa dum blog”. Daqui a muito tempo já cá ninguém virá. E eu não serei nada. Nem uma recordação.

49 comentários:

manel disse...

foda-se, q post marcante. épico

Canuca disse...

ióooooo...tá lindo ;)

tiagugrilu disse...

Estava a ver que não mostravas realmente aquilo que vales.

Excelente, Juvenal. Tens que arranjar maneira de isto passar a papel.

joaninha versus escaravelho disse...

Juvenal, O Anormal revelou-se um verdadeiro filósofo.
Platão é dos meus autores preferidos desde que tive que o estudar na escola. Penso que já deverás ter lido "O Banquete ou Do Amor". Se não o fizeste aconselho-te a ler.
Foi a melhor descrição que li sobre o Amor e olha que leio muito... Sobre o Amor e sobre outras coisas... :)
De certeza que não vais precisar ter filhos para seres lembrado :)
Muitos parabéns!

Lena Berardo (tem que ser personalizado porque não estou a brincar)

PWFH disse...

Epáááááá que bom!
Não passes essa merda para livro, senão quando morreres aínda te enterram ao lado do Nuno Markl!

Sanxeri disse...

Que testamento. Quando vi nem queria ler.


Mas li e reli, ADOREI!

Anónimo disse...

Isso era uma carta de suicídio?

grassa disse...

*clepe* *clepe* *clepe*.

E olha que não sou chinês.

F. Prior Rodrigues disse...

Isto dava para um livro ao nível de Tolstoi.

O Puto disse...

B.R.U.T.A.L.

Anónimo disse...

Fim abrupto e leve piadinha de mau gosto sobre o glorioso, mas de resto 5 estrelas! É bom perder uns minutos de trabalho para vir ao teu blog :)

dum dum disse...

Junto-me ao grego coro de louvadores:
fabuloso!

Àparte o insignificante anacronismo da "saladinha de batatas com azeite", prato que só se começou a confeccionar na Grécia 2000 anos depois dos tempos desta narrativa, tudo o resto é saboroso, gostoso, delicioso.

Anónimo disse...

Serás sempre o Juvenal, o Anormal.

E eu serei sempre,

O superanónimo.

Arsène Lupin disse...

Γαμώτο Juvenal, μια θέση στο διάολο!

juvenal, o anormal disse...

wtf?

joaninha versus escaravelho disse...

Vai traduzir ao Google, Juvenal... :P

anjoazul disse...

Não queria. Mas tenho que comentar. Não tenho? Mas não sei o que dizer. Porque fiquei sem saber o que dizer. Porque pura e simplesmente acho que foi a melhor merda que já escreveste.

grassa disse...

Estamos a vermo-nos gregos, Juvenal?

juvenal, o anormal disse...

tentei procurar, antes de dizeres porque sou mt esperto e proactivo, e deu "gamoto mia these sto diaolo".
alguma ideia?

grassa disse...

Nem por isso.

A mim deu-me algo do género "Foda-se Juvenal, um lugar no Diabo".

Mas tendo em conta que foi um tipo de capa e cartola que disse aquilo, se calhar até faz sentido.

anjoazul disse...

"Porra Juvenal, um lugar no inferno"

...depois pagas-me

Cactus Jack disse...

Mais do que a qualidade do texto (pretensamente) épico, realço a mestria da tradução de grego antigo até português nígã! E mais, ainda, destaco a qualidade das gajas que comentam o teu blog, carbalho gomes, pah!!

Anónimo disse...

Médio.

Evil Genius disse...

Pela quantidade de bobós que levas aqui na caixa dos comments de cada vez que te esticas nestes textos parvos, sugiro-te que leves um placard com um texto parecido na próxima vez que fores engatar ao bar onde costumares ir.

Se resultar, escreve-me um também.

Abraço.

joaninha versus escaravelho disse...

Γαμώτο Juvenal, μια θέση στο διάολο! = "Porra Juvenal, um lugar no inferno!"

Quem é amiga?? Quem é?
Agora quero um beijinho... lol

Anónimo disse...

fODA-SE (ai o caralho pro caps loque...), alto testamento.

Não tenho tempo para ler agora, mas quando voltar, ébrio que nem um fiel (ainda que relapso) discípulo de Baco, tentarei ler.

Parece promissor.

Ou senão amanhã, pela fresca, a ver se ainda consigo salvar 300 ou 400.000 neurónios de uma existência parva (mas prenhe de coisas boas) e morte ressacosa.

Chinês Democrata

RMP disse...

souvlakis com arroz malandrinho. very nice.
Do caralho.

Parabéns

joaninha versus escaravelho disse...

O "Cactus Jack" parece-me uma pessoa de bom gosto! lol

juvenal, o anormal disse...

yeah.

joaninha versus escaravelho disse...

yebh
yech
yedh
yeéé
She loves to yé yé yé... (Beatles)

joaninha versus escaravelho disse...

Acho que escrevi um "S" a mais no "He".. hehehe

Anónimo disse...

tl;dr

Anónimo disse...

Tás em forma!

Se calhar é por isso que a Lena Berardo se anda a fazer ao piso...

t-stoff disse...

bom!!!

Nuninho:| disse...

*nuninho do hi5 says:
vou tomar banho e vou prai
*nuninho do hi5 says:
ok?
sleepwalking through the mekong says:
só se comentares

juvenal, o anormal disse...

bastard.

Anónimo disse...

:D~ <- posts que "sim senhoras"


(buried child)

Maria Cachucha disse...

ahah, épico.

joaninha versus escaravelho disse...

Isso é inveja, Anónimo?
Se elogiar é fazer ao piso então tu também te estás a fazer ?
:P

AEnima disse...

este valeu sms para amiga, (que ja converti em fa ha uns tempos atras mas nem devia ter dito nada para nao ficares vaidoso)

juvenal, o anormal disse...

:D

Chinês Democrata disse...

Fosca-se, oh Jovial, que que glande posta!!!!!!

Finalmente, lá consegui ler isto. As ressacas são cada vez mais vi(r)olentas e cada vez me lembro de menos coisas...

... mas é isto, pá, tens aqui uma posta como já há muito não lia aqui. Brilhante, querailho.

Prontos, agora já chega.

Da próxima vez que começares a escrever daquelas coisas tipo "fishing for compliments", só tens de voltar aos comentários deste post. :)

AEnima disse...

so para avisar que a amiga telefonou pouco mais tarde ainda a mijar-se a rir. Pronto, e com esta podes babar, porque nem sou gaja de elogios.

Ennui disse...

Parabéns, fizeste da estupidez uma arte.

tiagugrilu disse...

Só quero deixar aqui a minha alta admiração pelo testemunho do/da Ennui.

Muito bom.

L. disse...

qualquer dia tens um programa na sic radical :P

idiossincrasia disse...

epá ... fenomenal.

Brisa disse...

Muito bom!

grassa disse...

Meu, escreve mais disto.