sábado, 19 de setembro de 2009

the broken doll

Em Dezembro de 1947, foi encontrado, dentro duma pequena mesa de cabeceira queimada, parte de um diário que terá pertencido a Hitler. A autenticidade do documento ainda não foi provada.


17 de Agosto de 1939

Querido diário,
Comprei-te para seres meu confidente. Estavas numa prateleira duma bonita loja ali como quem vai a descer a Karl-Liebknecht-Strasse. Ao lado duma loja de judiaria. Malditos judeus. Compram as lojas boas e ficam abertos até mais tarde. Têm tecidos bonitos, contudo. Comprei uns vermelhos para fazer uns cortinados e, se calhar, pensamos em mudar os sofás também.
Tens uma capa em couro escuro e um sitiozinho onde dá para encaixar um lápis a condizer. Que comprei em separado. Comprei também papel de forrar, para que não te estragues, meu querido diário. O Göring ficou cheiinho de inveja e disse que a agenda dele era muito melhor. Só porque tinha calendário e tu não. Mas, para mim, querido diário, és e serás sempre o primeiro.

Adolfo

20 de Agosto de 1939

Querido diário,
Roubaram-me a carteira. Deixei-a em cima da mesa daquele café onde costumo ir beber um galão e uma pirâmide e zás! Quando voltei já não estava. A empregada disse-me que tinha sido um tipo de nariz grande. Assim que cheguei a casa ordenei que prendessem todos os tipos de nariz grande.

Adolfo

22 de Agosto de 1939

Querido diário,
Às vezes sou um bocado impulsivo. Aquilo de prender toda aquela gente não foi muito boa ideia. Fomos a ver e eles são alguns milhões. Pelo sim, pelo não, paguei-lhes umas férias no campo e quando puder vou lá eu próprio em pessoa e pergunto um a um “foste tu que me roubaste a carteira?”. Quando descobrir o culpado, dou-lhe um beijo na cara e digo-lhe que se estava mal de finanças bastava pedir.

Adolfo

23 de Agosto de 1939

Querido diário,
As coisas não andam bem.
Acho que a Eva já não gosta de mim. Acho que ainda é por causa daquele anel de pechisbeque que lhe trouxe da Áustria. Afasta-me sempre que a tento beijar. De noite, na cama, vira-se para o lado a ler. Já não me dá a mão quando vamos passear. Nem se riu daquela piada de judeus que fiz ao pequeno-almoço. Até o Rommel se riu e saiu-lhe café pelas narinas. E isto vindo dum homem que sofre de rinite. Se calhar devia mandá-lo para um clima seco. Foi muito engraçado. Quando abandonar a política, dedicar-me-ei à comédia. Acho que tenho jeito.

Adolfo

25 de Agosto de 1939

Querido diário,
Pedi que me trouxessem água de Colónia. Parece que deixa um cheirinho que é um encanto. Eu que só usava sabão azul. Não sei se é do que andamos a dar aos judeus, mas os sabonetes andam com pior qualidade. E desfazem-se muito mais. Agora ao fim de 3 semanas estão todos secos e sem graça. Ah, tenho de comprar creme hidratante que ando com a pele muito mais seca desde que usei aquela porcaria daquele esfoliante do Rommel. Comprado em Paris, disse ele. Disse que a minha cara ia ficar como um rabo de um bebé. O Franco ainda me disse “estás com a mesma cara de cu de sempre” e, na altura, julguei que fosse um elogio.

Adolfo

27 de Agosto de 1939

Querido diário,
Vesti o meu melhor uniforme. Contei-lhe o que sentia. Ela disse-me que antes era diferente. Que eu fazia coisas bonitas por ela. Que lhe deixava as melhores pedras quando íamos apedrejar judeus. Que não dava peidos à mesa (que posso fazer? O Mengele gosta, e detestaria chatear o homem, até porque é ele que me arranja aquele remediozinho para as pedras no rins a preço de saldo e isto agora que os tempos estão como estão, todos os marcos contam). Que agora ando distante e só penso no trabalho. Eu disse-lhe que tudo ia mudar. Vais ver, diário, as coisas agora vão ser diferentes.

Adolfo

28 de Agosto de 1939

Querido diário,
Não sei porque despedi o barbeiro. É lixado acertar a porcaria do bigode. Ora cortei dum lado, ora cortei do outro e fui a ver e não tinha mais de meio polegar. O Goebbels cagou-se a rir quando me viu e acho que se peidou. Mas como estava a partir o pescoço a um dos filhos, não se notou muito. Gosto dele. Quando me mandou o cv, fiquei logo a saber que era um bom homem. Trabalhou num jornal desportivo em Berlim, “Der Ball”, onde tinha uma coluna semanal. Acho que as sucessivas crónicas sobre o Hertha o levaram a ser despedido. E depois andou uns tempos a distribuir folhetos para emagrecer no metro e eu, que sou um natural born talent spotter (tenho de deixar de me dar com o Churchill) percebi logo que ele era bom e cheguei ao pé dele e disse “queres, tipo, vir comigo?” e ele achou que eu estava a dizer que era para nos comermos no cu um ao outro à vez e ficou meio reticente mas eu depois disse que não era isso e rimos muito os dois. E é nestas alturas que devemos ajudar. Eu ajudo, meu bom diário. Eu sou um homem bom.

Adolfo

1 de Setembro de 1939

Querido diário,
Apanhei alta bebedeira ontem e invadi a Polónia. A Eva ficou tão molhada que me ia fazendo um broche logo ali à frente do Göring. Disse-lhe “tem calma, querida, logo à noite” e pisquei o olho, o bom. Que a franja comprida fez-me uma conjuntivite. Nunca mais chega aquela loção capilar que comprei.
De noite vestiu-se de judia e disse “finge que não paguei o bilhete do comboio para Auschwitz-Birkenau”. E eu fingi, embora a ame profundamente. “Põe-te de joelhos sua cabra judia e chupa a minha pila só de uma bola”. Acho que ainda lhe faz confusão bater só de um lado. Disse-me para tentar o ciclismo mas eu sempre fui um bocado desequilibrado.

Adolfo

3 de Setembro de 1939

Querido diário,
Acho que está toda a gente chateada por ter invadido a Polónia. Ainda por cima estou com alta ressaca e o telefone não pára. Já o Churchill me ligou, a cobrar no destinário (o velho sovina) a dizer que não sei quê e não sei que mais. Não liguei muito até porque ele tem a mania de ligar à hora da novela. O Klaus e a Inga estão juntos de novo apesar da sacanagem constante da Bertha. Parece que agora teve um caso o Christian, sem o marido saber. Acho que é a melhor novela que já vi.

Adolfo

7 de Setembro de 1939

Querido diário,
O meu otorrino diz-me para não gritar tanto e beber muita água. Mas que culpa tenho que os comícios estejam com tanta gente? É difícil chegar às últimas filas se não gritar. Vou ser mais moderado.

Adolfo

13 de Setembro de 1939

Querido diário,
Hoje fui almoçar com o Hess. Estive quase três quartos de hora à espera que chegasse. Raio do homem nunca chega a horas. Eu pedi bacalhau à brás e uma fatia de melão e ele costeletas de borrego e uma laranja. Ele é muito engraçado. Refere-se às SS como as “eu eu”. E, da primeira vez, não percebi mas ri-me. Às vezes sou um bocado assim. Gosto de agradar. Só quando cheguei a casa é que a Eva me explicou e tem realmente piada. Já lhe liguei a falar-lhe das “tu tu”. E rimos muito os dois. A vida é boa, querido diário, a vida é boa.

Adolfo

16 de Setembro de 1939

Querido diário,
Recebi os cortinados que mandei fazer e não é que mos fizeram ao contrário? São muito simples e ficavam muito bem com o sofá carmim que comprámos. Eram vermelhos e compridos, com uma bola branca no meio e uma cruz gamada. O Goebbels veio logo dizer que aquilo ficava bem era quando eu discursasse e ia parecer que a cruz ao contrário tinha sido uma opção assim como o Tarantino quando escreveu basterds em vez de bastards. E eu fiquei abismado. O homem sabe mesmo o que faz. Vou aumentá-lo para 300 contos.

Adolfo

25 de Setembro de 1939

Querido diário,
Nova bezana. Tinha só ficado de ir a casa do Goebbels beber um café a seguir ao jantar e pumba. Quando dei por mim, tínhamos invadido a França. Tenho mesmo de deixar de beber.

Adolfo

3 de Outubro de 1939

Querido diário,
Ando cheio de trabalho. A pessoa engana-se e invade um país e depois aquilo é um monte de complicações administrativas. O vinho é bom, no entanto. Vou só beber um copo depois do jantar e já volto.

Adolfo

5 de Outubro de 1939

Querido diário,
Não sei como fiz isto, mas ontem acordei na Dinamarca. Acho que me meteram qualquer coisa no vinho. Por este andar, ainda mando nesta porcaria toda aí pelo fim do mês.

Adolfo

19 de Outubro de 1939

Querido diário,
Ando um bocado sem dinheiro. Isto de mandar em muitos países cansa. E o pior é que foi tudo ao engano. Mas não era simpático chegar ao pé deles e dizer “epá, afinal já não quero mandar em vocês”. Amanhã tenho comício.

Adolfo

20 de Outubro de 1939

Querido diário,
I totally owned them, tonight. Estava-me tudo a sair bem. E quando saí não paravam de me aplaudir e voltei para um encore e cantei-lhes uma música da minha autoria chamada “Düssel, Brünettendorf”. Acho que gostaram. Embora me parece que o Goebbels fez aquele ar de “lá vamos nós outra vez”. Até parece. Eu nunca lhe digo nada quando ele anda para ali a partir os pescoços dos filhos. E aquilo incomoda porque a pessoa às vezes está a ler e tem de estar a ouvir *crac* assim todos os dez minutos.

Adolfo

1 de Novembro de 1939

Querido diário,
Hoje fomos comer a casa da minha sogra. O raio da velha não se calava com o “nunca viste um peru assim, pois não, Adolfo?”. Irritou-me tanto que estive quase para lhe dizer que a Eva dela tinha a rata tão descaída que parecia um peru. E ainda melhor que aquele porque pode-se sempre foder a Eva e não um peru. Acho que foi porque quando ela estava a comer camarão eu virei-me e disse “sabe, Franziska, o oceano ligou e estão a ficar sem camarão”. Foi muito boa. E ela ainda me disse que tinham ligado da loja de idiotas mas eu vi esse episódio e não respondi.

Adolfo

2 de Novembro de 1939

Querido diário,
Comprei um peru.

Adolfo

5 de Novembro de 1939

Querido diário,
Hoje fomos à casa de campo do Göring. Levei as minhas botas novas e reparei que não me ficam tão bem como quando as experimentei na loja. O sapateiro ainda me disse que me ficavam a matar. E eu disse-lhe que quase tudo me ficava a matar.
Não posso ser tão fashion whore.

10 de Nov...

15 comentários:

La.Mademoiselle.X disse...

muito bom mesmo!

R disse...

Acho que vou comprar um peru também!

caramela disse...

está(s) um portento, juvenal!!!

não acredito é que tenhas cometido um erro crasso: na novela, é o Klaus e a Bertha que estão juntos e quem é uma granda vaca é a Inga.

:/



posso gasear-te?

someonesomewhere disse...

awesome.

joaninha versus escaravelho disse...

Antes de continuar a ler tenho que perguntar: Então o gajo não tinha um Moleskine??? :/

joaninha versus escaravelho disse...

Conseguiste tirar a pinta do gajo, sim senhor!!!
A personalidade dele continua a ser chocante para mim.
E pelos vistos andam por aí em força, novas vagas destas. :/
Muito bem Juvenal! :)

Só continuo a pensar no Moleskine...

Shadow One disse...

Asche zu asche.

BigLord disse...

Mas... Mas??!...

Anónimo disse...

esqueceste-te cá das tuas peúgas brancas com as raquetes cruzadas...


ficaram na casa de banho,


debaixo da sanita.


again.



:|

Flávio disse...

Epá, muito bom! A referência ao Costanza foi a cereja no topo da pirâmide.

Esparsa disse...

A decadência de um vegetariano começa precisamente no dia em que ele resolve comprar um peru. Daí à capitulação de um país vai um passo, já se vê...

Mª Teresa Antunes disse...

ansewome!!!!

Dakota disse...

Tenho de deixar de te ler logo pela manhã. Fico com a merda da cara toda borrada de máscara de pestanas (rímel, pá).

Bock disse...

Muito bom.

(Um galão e uma pirâmide? Ah, ah, ah, ah!!!)

Weltrocker disse...

STAND OVATION!!
Ficamos à espera do diário do nosso Alberto João!!!
O pessoal já se anda a passar com e-milios de subject "PENSAMENTO DO DIA", e levam com um devaneio teu...
ICH BIN AUS BERLENGAS!!!