quinta-feira, 29 de maio de 2008

sexually transmitted electricity

Ela: "Não compreendo aqueles gajos que gostam de bater com a pila na cara das gajas".
Eu: "Gsddsrtgddf".
Ela: "Não entendi".
Eu: "Pois".

sexta-feira, 23 de maio de 2008

@incógnito

Ela: "Não faço o teu género? Como assim?"
Eu: "Do mesmo modo que não gosto de cavalos com cara de mulher, também não gosto de mulheres com cara de cavalo".

quarta-feira, 21 de maio de 2008

for stevie

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early one mornin' while makin' the rounds

De noite e de dia todos os gatos do Stevie Wonder são pardos.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

elegy

Ele: "Que cara é essa?"
Eu: "Perdi a minha avó".
Ele: "Coitada. Morreu de quê?"
Eu: "Não morreu. Levei-a ao Carrefour aqui de Telheiras e perdi-a na secção dos congelados".

sleepwalking through the mekong

O Zoio era o gajo mais forte que conheci na escola. O Zoio caçava cobras nas poças de água com as luvas de guarda-redes do chinês (“para não escorregar”) no fim do campo de futebol da escola e dizia aos tipos do ano a seguir, em especial a um que cheirava a fritos e a pés mal lavados, que lhe dessem murros na barriga enquanto ele fazia músculo. O Zoio mexia as mamas uma de cada vez, tinha uma metralhadora debaixo da cama e uns óculos com umas luzes que só ele e o pai, que era ninja, tinham, no mundo inteiro. Uma vez, o pai, que era ninja, fez um shuriken usando apenas um pacote de iogurte e um bocado de pasta de fígado e disse assim ao Zoio: “vai ali àquela tábua a quatrocentos metros daqui e desenha um boneco com um olho e eu acerto-lhe com este shuriken no olho”. Dito e feito. Pelo menos era o que o Zoio contava na escola. Mas não sabia era ler. O Prego, que era professor de História, disse-lhe que ele devia mas era precisar de óculos. E o Zoio foi comprar óculos mas continuava a ler como o Paulo Pires faz teatro. O Prego chamava-se Prego porque tinha um buraquinho no cimo da cabeça onde parece mesmo que se se fizesse um bocadinho de força se metia lá um prego. Uma ranhura assim para o redondo. Como se fosse o buraquinho por onde Deus tinha vertido a inteligência e depois tinha-lhe faltado material para tapar tudo e ficar assim mais composto. Havia várias teorias. O Gustavo dizia que ele tinha caído numa aula e batido com a parte de cima da cabeça naquela quina da ceninha de madeira onde se mete o giz. Claro que o Gustavo jurava a pés juntos que estava nessa aula. Mas o Gustavo também jurava que na minha casa havia um espírito metido num quadro da Gulbenkian. “E na tua não há?”, perguntei eu. E ele, que sabia sempre o que responder, disse: “não há que eu já vi”. O Gustavo tinha um poder enorme de convencer as pessoas de coisas. E eu, um poder enorme de acreditar. Uma vez, contou-me que o meio irmão dele tinha sido operado à pila e tinha passado seis dias no hospital com a pila de fora. O amigo do Gustavo, o Ruca, que era careca aos 11 anos e chorava como uma fonte de baba e ranho quando dormia longe da mãe, tinha-o visto aos saltos a fazer de avião no corredor do ciclo. O Assunção dizia que tinha sido duma aposta em que o Prego dizia que conseguia reter uma panela de fondue de queijo com a cabeça. Nunca ninguém teve a certeza, mas eu encontrei-o, anos mais tarde, durante a Expo 98. Ele reconheceu-me. Disse-lhe “olá” e tive uma vontade enorme de lhe pedir desculpa por todas as aulas em que não estive com atenção. Hoje nada sei de História. E quando alguém diz qualquer coisa dos Descobrimentos, tento sempre safar-me com um “o que eles querem é cona” e toda a gente se ri e o assunto muda para se o Porto é ou não uma invenção dos media.
O Pinto era quase tão forte como o Zoio. Chutava bolas descalço. E quis bater no primeiro metaleiro lá da escola. O Chunga. A quem todos os metaleiros lá da escola, eu e um caixa de óculos do ano anterior que andava sempre com uma t-shirt dos Sepultura, queriam imitar. Mas o Pinto era um ano mais velho e por isso não conta.
Mas isto não foi sempre assim. Na minha outra escola havia o Luís Filipe. O Luís Filipe partiu o braço uma vez e quase que nem chorou. E até teve um esgar de sorriso quando, logo de seguida, o Ferro atirou uma laranja à barriga do Nuno Tiago que o fez cagar-se nas calças de fato de treino novas que os pais lhe tinham comprado no supermercado Europa pelos anos. Aquilo saiu-lhe por entre os elásticos das pernas e foram até aos ténis porque o Nuno Tiago era daqueles que metia as meias por cima das calças. Os supermercados Europa eram uma cadeia, segundo estava escrito nos sacos de plástico. Nunca ninguém viu outro supermercado Europa sem ser aquele. Podia ser uma cadeia só de um. Mas quem percebe isso dos números são os meus netos. Eles até andam na universidade e têm cinco a tudo. Nunca ninguém teve coragem de corrigir a minha avó e dizer-lhe que na universidade quem tem cincos é quem pertence às tunas, à associação de estudantes ou ao grupo de teatro. Muito menos lhe disse que tinha chumbado. Preferi dizer que tinha optado por tirar um ano para fazer melhorias. Ainda bem que morreu e não me viu a falhar por completo na vida. Era a única pessoa que me perguntava se eu tinha namorada e a quem eu dizia a verdade. “Não, 'vó. Elas querem os tipos que jogam bem futebol”. Nunca poderia dizer-lhe que tinha chumbado. Ainda me lembro do ar reprovador do meu avô quando viu que tinha tido dois a desenho, no secundário. Nunca tinha torcido para alguém ter um AVC até então. Percebi que não tinha tido efeito quando ele disse: “Está ali uma nota menos famosa”. Quando o teve, quinze anos mais tarde, senti-me mesmo culpado, verti uma lágrima no funeral e nunca mais desejei mais nada assim deste género a ninguém. A não ser cancro da mama para o Mexia.
Presumo que o supermercado Europa ainda exista. Era no supermercado Europa que os meus colegas roubavam pastilhas. Isto porque conheciam a filha do dono. O Alcides. Alcides é o nome do dono e não o nome da filha do dono. Embora se a filha do dono se chamasse Alcides ninguém acharia estranho. Tirando o bigode, parecia mesmo uma adolescente. Deixámos de ir comprar ao Europa quando se descobriu que os frangos andavam lá pelo chão. Eu nunca roubei nada. Apenas uma cassete. Uma vez. Numa HMV nos arredores de Manchester. Suei tanto que prometi para nunca mais. Ainda por cima era dos Helloween e foi por causa dela (da cassete) que me tornei do metal. Ainda hoje a tenho. E quando pego no walkman para ir correr para Monsanto, é essa cassete que levo. Na esperança que me roubem tudo. E o sentimento de culpa que me consome desde os dezasseis anos desapareça. E eu possa, enfim, ter a paz que mereço.
O Flávio foi o mais forte durante um dia. O dia em que bateu no Luís Filipe e o meteu a chorar como uma menina. Tudo porque o Flávio insistia que quem tinha inventado a alcunha de Nébi Bufa dos Colhões para o João Neves tinha sido ele. Que calçava o quarenta e quatro aos dez anos e atravessava a escola com três passos e um pé. O João neves meteu-me uma vez a escavar ao pé de uma árvore que, segundo ele, era igual à de um mapa de um tesouro que o pai dele tinha lá em casa. Nunca lhe perdoei. Ainda para mais porque, nesse dia, o Tó Zé estava constipado e fizeram uma daquelas bolas de alcatrão (terra e escarra calcada com a palma da mão) do tamanho do bócio da avó do Flávio. No ano seguinte, o João Neves saiu da escola. Sem dizer nada a ninguém. E apareceu um tipo que era quase igual a ele. Passou a ser o Nébi 2. Mas tinha um irmão, apenas calçava o quarenta e dois e nunca a coisa foi a mesma.
Quem também chorava como uma menina era o André Filipe. Que só batia em raparigas. Em especial numa que andava de galochas e era do ano anterior e a quem ele esperava à porta do refeitório para lhe enfiar um soco no estômago e fazê-la vomitar. Hoje acredito que esta miúda seja boa na cama. Mas este conseguia gajas. Tipo a Joana. Que encontrei no outro dia numa inauguração duma exposição qualquer duma daquelas fufas ressequidas pelo tabaco e pelo gin tónico e já não é assim muito boa. O corpo cresceu-lhe em volta da cara. Que se manteve do mesmo tamanho que na terceira classe. Parece a versão feminina do Edward Norton. Ela só gostou do André Filipe no intervalo de dez minutos entre 9:50 e as 10:00. Depois voltou a ser amiga da Neusa. A Neusa usava franja way before as franjas estarem na moda. A Neusa e a Joana eram amigas de um gajo que apareceu lá na escola uma vez de collants, botas e uma camisola de lã comprida com um cinto amarelo. Penso que se chamava João Filipe. E gostava de dizer o meu nome. Chamava-me muitas vezes por André. E queria ser meu amigo. É a única imagem que retenho da criatura. Isso e de ele correr como a Sininho em direcção à Fátima Nova (que comia bananas só assim de engolir, em oposição à Fátima Velha que era gorda, tinha asma e tinha uma doença que lhe faziam cair as unhas dos pés) porque o João Filipe (outro, não o do cinto; ou então sou eu que chamo João Filipe aos gajos de quem já não me lembro do nome) tinha fechado a porta no dedo do David (que se lia Daví, segundo o próprio), que parecia um dos Thundercats, e ficou pendurado só assim por um fio (o dedo do Daví, não o Daví). Quando o vimos a não chorar, ainda alguém disse: “se calhar ele ainda é mais forte que o Luís Filipe”. Mas quando a pontinha do dedo se soltou e caiu no ralo da casa de banho já ninguém achou mais isso. A não ser o Alves que andou com aquela coisa de servir o esparguete a tentar tirar de lá a pontinha do dedo. Depois soprou e disse: “está como novo”. Já não me lembro se o Daví alguma vez mais teve o dedo inteiro ou se passou a cortar só nove unhas.
Hoje, não sei nada de nenhum deles. Ainda procuro no Facebook pelos nomes que me recordo. Tudo que me resta são estas memórias. De casa. Da escola. Dos amigos que tive e de quem já não sei nada. De quando ainda acreditava que podia ser feliz. Se te revires nestes textos. Se te lembrares ou fores algum dos aqui referidos, envia-me um mail e vamos reviver esses tempos. O tempo antes de os sentimentos secarem em mim para sempre.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

all the time

Gostava mesmo de conhecer mais pessoas para ter mais a quem odiar.

terça-feira, 13 de maio de 2008

honey, you're too much

You have successfully received D:\André\MSN\*****.JPG from *****.

eu:
quem é a bitch?
ele:
uma amiga minha
eu:
ela curte na cara
ele:
pois curte.
eu:
mas multiplos
ele:
ahahha
eu:
e deixar secar e fazer crosta e tirar com a unha
ele:
AHAHAH

the monkey and the plywood violin

Farto-me de contar às pessoas que vou ver o Leonard Cohen. Interrogo-me se ele já contou a alguém que também me vai ver.

pictures of me

As minhas fotografias são como o jazz. O que interessa é o que não está lá. O que, no meu caso, é quase tudo.

it's gold, jerry! gold!

Gosto mesmo do novo acordo ortográfico. Posso passar a corrigir as pessoas muito mais vezes.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

check please #657532

Fui jantar com uma miúda que me queria bater uma na casa de banho do restaurante e disse-lhe: "ou calças uma luva ou pedes um cestinho de pão só para ti".

gone in 60 seconds

A unidade de tempo mais pequena que se conhece é o tempo que demora uma miúda a adicionar-me ao messenger e a bloquear-me.

Xana says:
desculpa, n sei quem és
sleepwalking through the mekong says:
olá, sou o andré
sleepwalking through the mekong says:
fiz hoje 31 anos, gosto de wrestling, curling e de bater no meu irmão mais novo
Xana says:
desculpa
Xana says:
mas achei que te conhecia
Xana says:
sendo assim, vou apagar o contacto
Xana says:
fica bem
sleepwalking through the mekong says:
de maneira nenhuma
sleepwalking through the mekong says:
nao saio de casa há quase 3 anos
sleepwalking through the mekong says:
a minha mae deixa-me a comida num alguidar à porta do quarto
sleepwalking through the mekong says:
isso é descriminação positiva
Xana says:
tens uma certa piada apesar de pareceres psicopata
sleepwalking through the mekong says:
é como passear numa corda e não ver o que está lá em baixo
Xana says:
olha,fica bem

Xana appears to be offline. Messages you send will be delivered when they sign in. E-mail this contact instead

heavy metal hamsters

Um amigo meu arranjou um hamster fêmea e chamou-lhe Berta. Não me canso de lhe dizer que a rata dele é a Berta.

ring of fire

Estou certo que o Cláudio Ramos joga squash com um anal plug contra a renda das cuecas vermelhas que compra na Women's Secret em público, contraindo o esfíncter repetidamente.

sábado, 3 de maio de 2008

take it like a man

Fui, de arrasto, ao velório do pai duma amiga dum amigo meu. Como a gaja era boa, achei que devia dizer alguma coisa e saiu-me: "então? É a primeira vez que o teu pai morre?"

quarta-feira, 30 de abril de 2008

continuam sem reconhecer o meu talento para a poesia no irc

<homem_anus> conheci-te em barcelona
<homem_anus> pediste que te tratasse por tu
<homem_anus> queria comer-te a cona
<homem_anus> mas só me davas o cu
<homem_anus> .
<homem_anus> .
<homem_anus> fim
<homem_anus> é meu
<homem_anus> inventei agora
=-= Mode #poesia +b *!*@localhost by |marciana|
=-= YOU (homem_anus) have been booted from #poesia by |marciana| (|marciana|)
[INFO] You are banned from this channel.

domingo, 27 de abril de 2008

tilt

eu:
vi fufas boas a comerem-se no purex
ele:
duas, no máximo
eu:
nao eram como as dos filmes
eu:
mas eram boas
eu:
quer dizer
eu:
era uma boa e uma má
eu:
mas dois pares
ele:
mas eram solanges?
ele:
tipo, cabelo curto e tops coloridos e o caralho?
eu:
eu topo as fufas pelo queixo
eu:
aquele queixo quadrado à paulinho santos

quinta-feira, 24 de abril de 2008

reinactor

Tenho horror a pensar que podemos viver outra vez. Ainda para mais se o estado for aleatório. Não iria suportar acordar um dia e ser pobre.

putos a roubar maçãs

A parte que gostava mais do verão era ir para a casa da minha avó na Parede. Podia-se jogar o basquete (“e quem sabia jogar o basquete era o teu avô” - dizia a minha outra avó que não tinha uma casa de férias na Parede. Infelizmente, o meu avô não pode jogar mais o basquete porque teve uma mancha na perna que depois alastrou para a minha avó e ia alastrando ao bairro inteiro se não tivessem vindo logo os bombeiros e dito “altiparóbaile”. Provavelmente curou-a com mercurocromo. Este meu avô usava mercurocromo em tudo. Diarreia, seborreia, queimaduras, mamilos assados. E usavam sempre artigos definidos antes de todas as palavras. Em termos de cafés, o meu avô gostava mesmo era “do Buondi”. A minha avó não dizia nada porque o meu avô a obrigava a beber o descafeinado por causa da tensão, do glaucoma e dos diabetes.) num cesto feito pelo Sr. Não-sei-quantos que tinha muito jeito com tábuas e ferros e isso e que veio abaixo e se desconjuntou todo quando tentámos afundar os três ao mesmo tempo e ainda arrancámos um bocado da parede e culpámos o Carlitos que ficou com cara de parvo e ainda veio a minha prima e meteu-lhe os dedos nos olhos e ele ainda ficou com mais cara de parvo e não disse nada mas aposto que esteve quase a mostrar os pintelhos e a dançar o hula-hula, o futebol (com o Carlitos, dos pintelhos, que ia sempre à baliza porque o tufo amortecia qualquer bola que lhe fosse aos colhões) onde quem caísse ficava lesionado até ao fim das férias porque a superfície era em cimento rugoso e um dos amigos do Carlitos ficou com um joelho e meia rótula para a eternidade, mais ou menos como a mão da Rainha Santa Isabel que se podia ver não sei onde ao pé não sei de quê onde o irmão do outro protegia as formigas e gostava muito de barcos e sabia as capitais de todos os países do mundo excepto de um, andava-se de bicicleta com paus de vassoura nas mãos para aviar qualquer um que se aproximasse, jogava-se o ping pong (e normalmente acabava tudo à estalada com cabos de raquetes partidos e “anda cá ó filho da puta que eu parto-te a fuça toda 'tás é com medo não é ó meu g'anda cabrão?”), jogava-se com umas bolas daquelas que têm água e que se leva para a praia e depois se joga a um jogo que é meter uma bolinha pequenina no meio e atirar bolas pesadas a ver quem fica mais próximo, com um tipo meio gordo que atirou uma bola para a casa ao lado e fingiu que não tinha feito nada mas a vizinha do segundo andar que gostava muito de asas de frango e pouco de rissóis de camarão e latas de atum e gostava de chamar filho da puta ao genro pelo telefone às duas da manhã viu e chibou-se e ele foi depois lá buscar e estava mesmo arrependido, tão arrependido que o convidámos a entrar e lhe demos um prato de sopa e uma sandes de marmelada que era feita na garagem e onde o meu irmão meteu um braço uma vez no caldeirão da marmelada quase como o Obélix, que tinha um amigo (o gordo da bola, não o Obélix) que tinha sido operado à cabeça e que dizia “se me bateres com um pau de vassoura aqui *apontava para a cicatriz* pode ser que fique já aqui” e ainda nos desafiava a fazê-lo e quando perguntávamos o que é que ele tinha ninguém sabia dizer e inventava-se um bocadinho “diz que o pai é maluco e aquilo pega-se e foi operado para tirar o bocado que o faz ficar maluco”, olhava-se para o dedo do nosso vizinho que tinha um ferro-velho e que tinha saltado no dia em que andava a encher cartuchos e que o tinha guardado em formol num frasquinho de pickles e a quem eu uma vez acertei com um daqueles coisos de uma bateria que escavacámos toda e andámos a jogar futebol com os pratos e os tambores e lá essas cenas todas e ia-lhe vazando um olho, brincava-se aos cobóis e cada pistola tinha perto de infinitos tiros antes de ser carregada, contruíam-se casas com caixotes para depois se rebentar ao pontapé e andar tudo à estalada e a enfiar farpas nos dedos das mãos e a dizer que a culpa era do Carlitos que acabava sempre por levar na cara.
O lanche era sempre uma carcaça com manteiga. Outra com marmelada e um copo de Cola Cao.
Fiz vários amigos. Quando conseguia evitar andar à pancada com eles por me terem ganho em qualquer coisa que eu estava convencido ser melhor que eles, ou seja, praticamente tudo. O Hugo era diferente. Desde o dia em que fomos à quinta que soube que o Hugo era diferente. O Hugo deixava-se perder porque era pobre e achava que era para isso que eles serviam.
A quinta ficava numa estrada que tinha um muro e que era preciso apitar para se saber se vinha lá alguém. Sempre achei que apitar ou não era irrelevante porque toda a gente se atirava para aquela curva a toda a esgalha que mesmo que viesse alguém não haveria nada a fazer e acabaríamos todos em cadeiras de rodas a beber suminho e sopa moída até ao fim da vida. Havia um telheiro com pedrinhas no chão que se metiam entre o dedo grande do pé e o outro ao lado e voltavam connosco para casa e um armazém que tinha cenas antigas e um míssil que uma vez o irmão de um amigo disparou a meio da minha festa de anos, onde só iam três pessoas convidadas por mim e quinze convidadas pelo meu irmão (era realmente impopular. O que me safava eram os amigos em comum, que não eram da escola) quando eu já morava no Lumiar e ia arrancando a cabeça à minha prima mongolóide. Felizmente, quando nos rimos todos, ela pensou que nos estávamos a rir de ela ser mongolóide e riu-se também.
Quem tomava conta da quinta era o “Sô Zé”. O Sô Zé tinha quinhentos e quatro anos mas parecia ter quinhentos e cinco. E umas galochas. Verdes. A feder a chulé. Anos mais tarde, depois de o Sô Zé morrer (nunca ninguém me disse que ele morreu nem sei onde está enterrado. Quiseram fazer como se ele não tivesse tido importância nenhuma na minha vida. Mas eu lembro-me, Sô Zé. Se está aí a ler, ou alguém a ler para si, pois sei que era analfabeto, fique a saber que eu lembro-me), encontrei as galochas na garagem da casa da Parede. Ainda as calcei. Era demasiado novo para ter nojo dos pés do Sô Zé. Segundo constava, eram os pés do Sô Zé que davam sabor ao vinho que se fazia na quinta. O travo único que nenhum enólogo conseguiu alguma vez identificar. O único vinho que não precisa de queijo a acompanhar. O Sô Zé tinha uns familiares que nunca ninguém sabia quem eram. E constava que um deles bebia e teve uma trombose. E mesmo depois da trombose continuou a beber assim pelo canto da boca. Teve nova trombose e depois já só bebia por uma palhinha. Na quinta havia pêssegos e tangerinas. E o Carlitos gostava de ir aos pardais com uma tábua com um elástico preso com pionés onde metia pedrinhas e tentava acertar nos pássaros (não os do Hitchcock – a minha cinefilia a vir ao de cima). Nunca acertou em pássaro algum mas encontrámos umas bisnagas. Uma delas era igual àquelas pistolas que os alemães usavam e que eram muito homossexuais (a pistola, não os alemães). Como só deitavam um esguicho de nada, passámos a tarde a atirar aos calções do Carlitos, assim perto dos tomates e a dizer “iihhh, mijou-se!”. Durante os dez anos em que fui à quinta, estas são todas as minhas memórias. Isto e o Hugo ter-se cagado antes de chegarmos a casa e ir a brincar com aquilo a fazer de plasticina enquanto íamos no carro. E ainda levou. Como da vez em que eu nos tranquei na casa de banho para fugirmos ao meu irmão que tinha estalinhos e depois culpei o Hugo que, por ser pobre, levou na cara e eu tive direito a rebuçados e a sobremesa reforçada.
Foram os remorsos que me levaram a tentar ser amigo do Hugo quando foi passar férias connosco à Parede no ano seguinte. O Hugo tinha 8 anos e já tinha um bigode maior que o da Fernanda Ribeiro. Andava com os pés para o lado e era bom a inventar argumentos para filmes de cobóis. O Hugo fazia recados para a mãe a troco de vinte e cinco tostões. Juntava dinheiro para comprar um relógio. Um Casio daqueles que tinham umas coisinhas que se dizia que era para funcionar a luz solar. A minha avó, comovida, comprou-lhe um relógio e eu parti-lho com um martelo porque detestava este tipo de bondade gerada por pena. Queres um relógio, trabalha. Agora não me lixes a herança. Isto é inventado. A minha avó comprou-lhe mesmo um relógio num gesto muito bonito e nesse dia até o deixámos comer à mesa connosco e não na cozinha, com a criadagem.
O Hugo era um teórico das brincadeiras. Quando brincávamos aos cobóis com o Hugo era obrigatório carregar ao fim de seis tiros. Ele contava-os e ia anotando com o lápis que trazia atrás da orelha na agenda que tinha sempre com ele. Era do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa. E era de três anos atrás. Constava que o pai do Hugo guiava um táxi e tinha feito amigos na banca. Que lhe davam agendas e uma pancadinha no ombro perto do Natal. “Você é um bom homem, Artur, não se perca. Tome lá uma agenda para o seu”. O Hugo gostava do Chaplin. Mas chamava-lhe Charlot. De táxis. De bigodes. Do lápis atrás da orelha. Tinha orgulho na taberna da mãe. O cheiro a cerveja e a pataniscas de bacalhau enchiam-no de orgulho. No futebol, gostava era de centrar, porque tinha o pé chato. Ainda lhe disse que era “um gajo fixe”. Num dos raros momentos em que o meu coração cheio de maldade e negrume amoleceu e quase fui humano. Ele sabia que o fosso social que nos separava nos impediria de continuarmos amigos depois das férias. O seu coração retraiu-se e endureceu como as mãos de um agricultor ao fim de uma vida a trabalhar a terra. Ainda nos convidou para uma festa de anos. Onde havia um miúdo dois anos mais novo que me vinha perguntar “quantos anos tens?” e eu dizia “doze” e ele “eu tenho dez mas não tenho medo de ti”. Não joguei à bola com o Hugo e os amigos. Evitei usar talheres porque acreditava estarem besuntos de gordura e pobreza. Felizmente, os pratos eram de papel e pude rasgá-los no fim de cada uso. Fomos elogiados por sermos muito sossegados. Não era sossego. Apenas preferíamos observar o povo que laaaavaaas no rioooooo e talhas com o teuuu machaaaado as táaabuas do meu caiiixãaao.
Hoje o Hugo deve ser um homem feito. Deve ter um emprego honesto. Deve ter uma mulher e um filho que também se chama Hugo. São orgulhosos dos seus bigodes, do seu cheiro a cerveja e das nódoas de patanisca que lhes populam as camisas.