sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

the beginning

Continuo com a folha em branco. Folha que não é folha. Que não deito fora. Ali no saco onde meto os jornais que li. Junto aos anúncios do Veiga que vende casas ou da Fátima que é santa e viu a luz. Talvez morasse perto do Colombo e não tivesse muito que fazer. Então passava os dias à janela. Depois de passar a ferro e ter ido à praça comprar peixe e coentros para o jantar. Que comia mais a mãe que já não tinha dentes nem memórias. Os dentes perdidos pelo recuo das gengivas inflamadas como um rabo comido sem lubrificante e as memórias presas entre um coágulo e uma veia dilatada. Onde estava guardada a infância e as histórias que repetia no jantar de Natal como se fosse a primeira vez. Agora não dizia nada. Molhava o pão duro na canja que mastigava com os dentes que já não tinha. Comia sempre canja. Porque nunca se lembrava da última refeição. “A velha assim sai barata”. O filho estava longe. No estrangeiro. Onde se ganha a sério que isto cá não é vida para ninguém. Eu, um dia, também me mando daqui para fora e vou ver a América. Ou então o Américo que é primo dos meus pais e mora ali a seguir a Canal Caveira. E foi a primeira pessoa que me ensinou a usar uma pá como deve de ser. Passámos o Verão a fazer buracos no chão onde enterrávamos caroços de pêssegos a ver se nasciam árvores. Mas nada. Só me nasceram calos nas mãos. E bolhas nos pés de usar as botas de borracha para andar na lama. Também não voa se deixar a janela aberta. Bascula, não abre. A janela, não o papel. Se abrir vem para cá e bate-me na cara. A janela, não o papel. Tenho uma espécie de fobia a janelas de alumínio que se abrem sozinhas e depois eu estou agachado a apanhar qualquer coisa e quando me levanto abro a cabeça ao meio, como melancia num piquenique. É por isso que não tenho amigos. Nunca faço dessas coisas que põem a integridade em risco. O único amigo que tinha disse-me que não era eu, era ele. Foi comprar cigarros. Nunca mais voltou. Quero acreditar que gostasse duma marca única. Que estava esgotada. E que era preciso ir à fábrica que fica na Tailândia entre dois rochedos onde só se acede por uma ponte de corda. Onde trabalham pigmeus alimentados a caldo de nabiças. E com uma tanga castanha de pele de cordeiro. Onde secam o tabaco ao sol. E o enrolam à mão com o amor de um pedófilo que acaricia o pénis minúsculo de uma criança. Foi há quatro anos. Se calhar foi a pé. Era um tipo que gostava de andar. E fazia-o sempre que me aproximava dele. Sei que um dia voltará. E vai-me dizer “afinal não era eu, eras tu” e dá-me um abraço sentido e vamos os dois fazer coisas de homens. Jogar bowling e mandar bocas às miúdas de carro enquanto apitamos com a janela aberta e gritamos “ó boa, ó boa, senta aqui no mastro do pai”. Rimos e vamos comer um cachorro ao fim do dia. Ali às roulottes do Campo das Cebolas. Combinamos no dia seguinte ir atirar umas bolas de baseball um ao outro para um jardim espaçoso. O cursor pisca como um olho do cu que se contrai para tirar aquele último bocado que deixa sempre mal-estar. Levanto-me. Dou voltas no quarto. Ou acho que dou. Posso só estar aqui sentado, a ver pornografia com uma mão no rato e outra na micro-pila e precisar de completar isto assim com um recurso mais de quem pensa realmente no que escreve. A última correspondente que tive dizia-me que a minha caneta azul tinha coisas muito bonitas dentro. Eu espreitava e via apenas uma bolinha de metal que se enchia de tinta quando rodava. Abri-a com uma faca (à caneta, não à minha correspondente) e era tinta. Azul. Que me encheu os dedos e a cara. Quando lhe toquei. E depois só um dedo que pintei todo para apontar só para coisas azuis. Com obrigatoriedade. O que me valeu é que estava nublado. Estava também frescote. Por isso levei o meu kispo novo. Que não condizia com o dedo mas era giro que se fartava. Não sei como fazia aquilo. Entrava em automático e era não pensar muito. E usava muitas reticências. Há miúdas que ficam doidas com reticências. O ponto final parece de quem tem as ideias muito mais acertadas. É quase eu hoje. Com tantos pontos finais e nem uma ideia na cabeça. Tento falar do petróleo. Das OPAs. Do Jardim Gonçalves. Mas o meu conhecimento não vai além do jardim do Gonçalves que era vizinho da minha avó e morava no rés-do-chão. Que dava para as traseiras daquelas antigas. Com escadas de metal e telheiros às ondas onde havia um jardim com alfaces regadas com água e ar cheio de chumbo e mercúrio das camionetas que passavam na rua que lhe deu cabo da próstata que ficou do tamanho duma bola de ténis e um dia rebentou na cara da mulher quando lhe fazia um botão de rosa. Depois deixou de me escrever (a minha correspondente, não o Gonçalves). Acho que esteve na Finlândia. E depois voltou para Alcácer do Sal. Ou outra terra por onde se passava quando se ia para o Algarve antes de haver auto-estrada. Sou eu que vejo o correio. Todos os dias quando saio de casa e à noite, quando volto. Cansado do meu trabalho de carimbar circulares e assinar despachos que não despacham nada e só entopem o sistema como uma trombose dum avô num parque infantil enquanto toma conta do neto com um sorriso de saudade de quando era novo. E, de repente, está tudo escuro. A cara na areia. Um fio de baba que empasta e forma uma espécie de massa. Os ténis desapertados do neto à altura dos seus olhos. “O que se passa, avô?”. Nada. Já não se passa nada. Apanhou o autocarro que já não volta. E o passe tem duração eterna. Acho que não me vai escrever mais. Um dia partilhámos uma garrafa de whisky na estação do Oriente. Acho que foi isso. Ou não gostou de mim, ou o whisky era mau. Continuei a comprá-lo e sempre que posso, ofereço. Quem conhece o meu quarto sabe que isso não é possível. É mais assim uma ida e volta em U com um perna menor que a outra. Como o meu tio que era pescador e andava sempre com uma Bíblia debaixo do braço para ficar alinhado com as outras pessoas quando houvesse necessidade. Homem prevenido vale por dois. E o meu tio valia por um. Comia por dois. Teve um AVC por três. Quando tinha a mulher de quatro. Às 5 da tarde. Já nem seis muito bem a fazer o quê. Puxo o prepúcio para fora. Depois para trás. E abano o ar em direcção ao nariz. A ver se cheira. Cheira. Apago tudo. Começo de novo. Era uma vez. Olho para o copo do whisky e ele finge que não é nada como ele. Olho assim de soslaio. E ele desvia o olhar de soslaio. Agarro-o de repente e digo: “então, man?”. E ele: “então o quê?”. E eu: “então mas 'tás a olhar para onde?”. E ele: “então mas não se pode?”. E eu: “pode-se”. E decido bebê-lo. Os copos não falam. Mas o whisky faz mover a mobília. Ando para cima. Já vai longo. Volto aqui. Prometi que amanhã chegava a horas. Quando se chega a horas, pode-se sair mais cedo. E ir para os copos mais cedo. Com os amigos mais cedo. Tenho de tirar o Mário da caixa de sapatos. Meti-lhe uma corda. O meu terapeuta insistiu. “Porque não tenta arranjar amigos que não vivam em caixas de sapatos?”. “Eu tento, Sr. Dr.”. A sério que tento. Todos os dias tento ser simpático com o próximo. Mas os próximos estão sempre longe. E têm sempre alguma coisa para fazer onde eu não estou incluído.

23 comentários:

anjoazul disse...

Genial.

(ainda bem que estás de volta)

Anónimo disse...

tl; dr

Arsène Lupin disse...

Foda-se pá...



(genial)

Tindergirl disse...

Um post a sério daqueles que eu gosto :)

PWFH disse...

Cum caralho ............... és tão perturbado quanto eu, mas escreves melhor. Autêntica avalanche!

Contabilista Emocional disse...

Depois de pequenas pérolas, um requintado colar. Parabéns!

Nuno Blanco disse...

Muito bom. Como já te disse, escreves muito bem pah. E pela alteração de humor dos posts, vê-se que temos algo em comum. Não somos bipolares, mas esforçamo-nos ;-)

Parabens

Anónimo disse...

Puta que pariu!
Deves ser o Lobo Antunes dos blogs...(reticências como elas gostam).
Do caralho pá!

Anónimo disse...

A sessão de autógrafos do teu livro vai ser onde? Incógnito?

Muito bom pah. O post, não tu.

O Man disse...

Mais 5 anos de terapia e pode ser que consigas escrever alguma coisa de jeito.

Anónimo disse...

tl;dr

Louro disse...

Tu és desequilibrado.
Eu gosto de pessoas desequilibradas.
E tenho amigas que também gostam de coisas desequilibradas.
Pronto, é só uma amiga.
Continua.

Aranho disse...

A falta de haloperidol fica-te bem. Muito.

Os bebedolas do 6º andar disse...

Amigo Juvenal, leitura de grupo. Custa começar (como uma menina virgem)mas depois de ler tudo fica-se no teu lugar. as divagações, as entrelinhas. Juvenal (porque já te posso tratar assim) um abraço.

E faz mas é a merda de um review de cinema!

Jota, Rasta, André e a miuda do setimo andar qu'é extremamente BOA!

(puto, continua)

AEnima disse...

Cheira a mofo. Este pareceu um "regresso ao passado" de como escrevias ha uns anos largos atras. Alem disso, para falares de OPAs e Jardim Goncalves... a coisas nao eh fresca.

Lazy

AEnima disse...

... e dai que eu tb sou... que se foda a taca!


PS - Moderacao de comentarios??? Alguem calcou os calos 'a menina? ihihi

Dead Man 1 disse...

Foda-se! E eu que achava que conhecia uns gajos mesmo perturbados

juvenal, o anormal disse...

já estão moderados há uns tempos. é para evitar as bichas histriónicas na época de saldos de sapatos e malas.

grassa disse...

A moderação de comentários é para meninos...

Ska disse...

A moderação de comentários é para meninas...

. disse...

moderação de comentários é para "sensíveis"

grassa disse...

O Cláudio Ramos é para meninos...

um gajo k kurte este blog disse...

o claudio ramos só po cu...