quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

i'm the tin man

Há uma luz que não se apaga.
Combinámos no café por baixo das arcadas. Onde nos encontrávamos quando saía da universidade, já tarde. Gostava de ir ter com ela até o encanto passar. Encanto que nunca houve. Não gosto é de estar sozinho. Agora faço-o por hábito. E ela sabe que eu não sou de hábitos. Hoje digo-lhe. Eu sentava-me e esperava que chegasse. Os livros chegavam primeiro. Já presos por uma corda para não irem muito longe. Saltando de nenúfar em nenúfar. Evitando cada poça. Cada salpico. Ela vem depois. Ela demora um café inteiro a chegar. Apanha os livros e desliza pela cadeira. Pergunta-me como estou. Normal. Normal a ver a vida passar e aqui metido contigo em vez de estar na rua. Livre. Pronto para foder qualquer miúda de rabo redondo e botas pelos joelhos. Normal, digo.
Desta vez, precisava de tempo. Pedi um café e um pastel de nata, que comi com gosto. O recheio primeiro, com a colher do café ainda quente, a massa depois. Que dobrei e apertei e dei trincas pequenas até chegar ao dedo que reconheci por já não parecer massa de pastel de nata, mas sim um dedo. O indicador. O indicador com que apontei. Quero aquele pastel de nata. Não. Não esse, o outro. Esse. Menos queimado. Em toda a sua graça. Um dedo comprido, bonito, com uma bolha pequenina permanente. Redonda. Perfeita. Dos croquetes da Maria Helena. Num dia que o jantar saltou da panela espiralando pelo ar e me agrediu. E eu ainda lhe disse jantar, mas isto é assim? E ele ainda me olhou assim de lado e ia dizer qualquer coisa até ser convencido em contrário pelo arroz de tomate que saltitava no tacho mais pequeno, porque o médio estava para lavar de um lombo de porco com castanhas do almoço que ficou indignadíssimo por ir ser refogado em vez de assado no forno. Eu ainda tentei explicar-lhe que agora era assim que se fazia nos Estados Unidos mas ele não quis ouvir e mergulhou-se no caldo de azeite e cebola que cobria o tacho enquanto dizia mmmmmmmm e fez por tapar os ouvidos se os lombos de porco tivessem mãos para o fazer e ouvidos para tapar. Por isso limitou-se mesmo a só a fazer de lombo de porco e permanecer, imóvel. Por pena, ajudei-o a mergulhar. E ainda o meti de lado para parecer mesmo que me estava a ignorar. Sabendo nós os dois que os lombos de porco não foram feitos para ignorar ninguém mas para serem comidos com batatas e castanhas e arroz daquele indiano. Vira-te lá que estás a ficar queimado, disse-lhe para julgar que ainda mandava alguma coisa. Como não se movia, espetei-lhe o garfo e zás. Ainda se queixou de se eu fosse inteiro não fazias isso. Ou isso ou foi da erva que fumei. Tapei-o com castanhas e disse-lhe um provérbio daqueles que rimam. Ele calou-se e fez de lombo de porco à séria. Dos que não falam e não precisam duma corda porque se começam a desfazer quando o refugado começa a fazer fssshhh mais tempo do que devia. O grande era para a sopa. De tomates ou ervilhas. Que ficava sempre em cima da bancada, por lavar, até à próxima sopa que vinha na semana seguinte. Os vegetais empurravam-se para não serem os próximos. As cenouras deixavam-se secar e mirravam com o frio. Como o pénis de um velho saído da água na praia da Ericeira, numa tarde solarenga de Inverno. Apontavam os pepinos que não serviam em sopa. Só em arroz ou salada. Com cebola, muita cebola e pimenta e azeite. Sem sementes. Ao contrário do esperma. E os tomates criavam pintas pretas como quem diz usa mas é as ervilhas que estão lá em baixo e não ligam muito a isso de acabarem em sopa. Portavam-se como homens. Na panela enorme a dançar com a cebola que já boiava no caldo de galinha quente. Limpei a boca e disse-lhe eu não tenho coração. Só um vazio enorme que não podes preencher. Fi-lo depois do pastel de nata porque gosto mesmo de pastéis de nata. E porque depois não ia querer ouvir o que tinha para me dizer. Ia falar de compromisso. De uma relação é isto. Que rabo tem aquela miúda ao balcão. Espero que se volte antes de sair. O empregado sorriu. Deve ser boa. Pode ser que seja ele que seja apenas simpático. Do namorado que deixou para estar comigo. De sempre me ter defendido. Tem a boca assimétrica. Desligo. Devia ter pedido um palmier coberto. E aqueles bolos de chocolate. Respiro fundo. Espero que tudo saia de mim. Respiro fundo e deixo que tudo saia de mim. Não sai. Respira pela barriga. Nada. Aqui dentro há uma luz que não se apaga. Por mais fundo que respire. Desligo e não a oiço. Mas fico em mim. Sei onde estou e sei que não quero estar ali. Tento de novo e ela está a dizer qualquer coisa. Deve ser para o empregado do bigode. Ele olha. Tenta nova investida. Então e a menina não vai querer nada? Um pouco de fita-cola para o coração, disse eu. Com certeza, disse o empregado do bigode e foi para trás do balcão mexer em embrulhos e ajeitar os salgados que estavam irrequietos porque alguma coisa se passava no nível de baixo, com os refrigerantes. Uma cocacola disse qualquer coisa a uma pepsicola que ela passava o dia todo a olhar para os sumóis e vai daí os compáis acharam que isso não era coisa que se dissesse a uma pepsicola e não fosse os refrigerantes serem seres inanimados e a coisa poderia ter dado para o torto. Havia também uma carica mas já não tinha nada a ver com isso. Estava só para lá. Caída. E esquecida. Como um idoso numa cama dum hospital. A vomitar a sopa de legumes do jantar. Deixem-me ir cagar. Gritava. Ignorado. Sozinho no corredor. Não deixavam. Faça na fralda. Dizia a enfermeira do turno da noite quando ia fumar à varanda e alimentar a tuberculose que escondia de toda a ala. Deixem-me ir cagar. Fiz para me levantar. Desculpei-me que o meu casaco já ia de saída. Meteu conversa com um guarda-chuva que estava no caixote ao pé da porta. Tinham combinado ir às compras. Um precisava de uns ténis novos. E o outro não precisava de nada em especial mas gostava muito de ver as montras das lojas que ainda ficam mais bonitas nesta altura do ano. À saída tocou-me na mão. Deixa-me só ir ao teu lado mais uma vez. E foi. Esta tarde ia ser minha. E já não ia ser minha. Não consigo respirar. Sufocas-me. Não quero mais estar contigo. Continuou ao meu lado. Falou-me de qualquer coisa. Fiz como quem ouve. Muitos polissílabos. Metralhados ao meu lado. Como se me interessasse. Já estava lançado a olhar para a calçada. Porquê na diagonal. Porque metem as pedras assim na diagonal em vez de paralelas aos rebordos da rua. Dá muito menos jeito nos cantos. Devia ter ouvido os meus amigos. E qualquer coisa sobre eu ser sempre a mesma coisa. És sempre a mesma coisa. Sou sempre diferente. Sou mesmo sempre diferente. Mas não lhe disse. Não há um dia que seja igual. Mas não lhe disse. Assim é melhor para ti. Assim nunca saberás o que realmente perdeste. Nunca quero sair e culpo-a sempre pelos peidos que dou na cama. São os teus pés que cheiram mal. Mas também não lhe disse. Que ténis bonitos. Já tenho uns. Gastar mais dinheiro? Não. Mas depois que faço com ele? É melhor comprá-los. Não agora. Espera aqui um pouco que vou só ali comprar uns ténis. Nem eu consigo fazer isso. Na minha cabeça sim. Na minha cabeça aqueles ténis são meus e saio da loja com eles calçados. Num salto rodopiante com música estrelada por trás. E tu já não cá estás. Espero que tenhas sido levada pelo vento. Ou pela chuva que aí vem. Ou fulminada por um raio que saia do céu limpo. Só para ti. Mas não fui. Agora estou a ouvir. Eu posso mudar. Diz-me o que queres que faça que eu mudo. Não podes mudar. Por mais que mudes, eu ficarei sempre na mesma. Eu não mudo. E o problema é meu. Lá vem a miúda da flauta pedir dinheiro. É gira. Mas eu não sei o que fazer com ela. Pode estar suja por baixo das cuecas. E precisava de um banho. Posso fodê-la só a seguir ao banho. Depois de lhe queimar as roupas. E catar-lhe os piolhos. Pode ser só da roupa que parece suja. Acredito que tome banhos de imersão na casa que divide com a mãe na Avenida de Roma, sem bolor nos cantos da banheira, sem loiça acumulada na bancada, e por baixo daquela roupa está um corpo de princesa imaculado. Lavado, a cheirar a lavanda. Como as toalhas que tiro da máquina e estendo ao sol nas manhãs de Verão. Rapidamente, com uma mão em frente aos olhos. Para o sol não estragar esta cútis maravilhosa. E depois daquela vez que disseste que não ias sair mas foste ter com os teus amigos? Pois disse. Já estava farto de ti. Olha, esta estava no Incógnito a semana passada. Olha para mim. Olha para mim. Não olhou. Deve pensar que esta é minha namorada. Tenho o carro no parque. Que lhe posso dizer? Vim a pé. Ela sabe que não. Se faço muito mais tempo passa da hora do autocarro e tenho de ir pô-la a casa. Vai fazer de propósito. Queres que te leve? Ela sorri e diz que sim. Quero mesmo não a levar. Espero que se entale na porta do carro. Que os dedos lhe saltem da mão. Ou o vidro se feche e lhe corte o braço pelo cotovelo. E depois eu digo-lhe que não posso parar aqui. O melhor é saíres e ires mais o teu braço para o hospital. Eu chamo um táxi. O braço não cai. E tenho de lhe dar boleia. Queres ir por onde. Nem me interessa. Vou pelo caminho mais curto. Os semáforos agora têm bolinhas em vez de luzes inteiras. Que diz ali. Vira aqui. Em frente é mais rápido. Antes ias sempre por ali. Antes gostava de ti, penso. Penso, não penso que gostava de ti. Até gostei. Acho. Agora já não gosto. Não me queres ir comprar cigarros. Quer. Esquece-se que eu já não fumo. Deixo que entre na bomba. Desligo o telefone. Fecho o vidro e arranco. Não olho para trás. Espero que alguém a apanhe e a faça feliz. Eu não consigo.
Em mim, há uma luz que se vai apagando.

28 comentários:

Hugo TR disse...

fodasse. eu, com a minha performance sexual e com a tua labia, dominava o mundo.

Canuca disse...

Não sei o que se passa com a cena do pastel de nata, parece que n sabe tão bem se n fizermos o ritual da colher de café...

Bommm textoooo...

joaninha versus escaravelho disse...

Achei um pouco brejeira parte das ervilhas.
Fora isso a tua esquiziofrenia vai de vento em popa!
Um brinde à loucura! :)

Anónimo disse...

A tua mente é uma coisa fabulosa!

anjoazul disse...

coeur mecanique..oú son tes pilles?

tiagugrilu disse...

A tua mente não é nada disso. Escreves bem, tu.

fatchary disse...

Muito bom, quase tão bom como... sei lá... outras cenas!

Anónimo disse...

apaixona-te por uma doente terminal.

paperdoll disse...

(hmm.. já diziam os smiths.)


speechless.

Anónimo disse...

Um final fantastico

Anónimo disse...

confesso que a meio ia desistido de ler mas ainda bem que nao o fiz

grande juvenal
continua :)

P.

Em Bicos de Pés disse...

Temos uma coisa em comum: a forma como ambos comemos o tal pastel.

euexisto disse...

Weipá! LINDO! por alguma razão este é o melhor blog do universo

Anónimo disse...

Escreve-se "refogado".


"Refugado" significa rejeitado, desprezado.

Anónimo disse...

Para a próxima tenta misturar mais tabaco ao enrolares... é que depois isso fica muito forte e dá nisto!!!

francis disse...

que história do catano...

juvenal, o anormal disse...

tens razão, rapaz.

Ricardo disse...

Eu percebi essa.

E outras também.

Anónimo disse...

Parabéns Juve, muito bom.

Nuninho:| disse...

tá fixe:D

juvenal, o anormal disse...

rejeitei para ali uns comentários sem querer. desculpa, xana. se houver alguma coisa que eu possa fazer, tipo comer-te ou isso, avisa.

Anónimo disse...

queremos é ordinarice, por favor.

lamentos sobre sopas e pastéis de nata são coisa de roto, meu caro.

Anónimo disse...

bla bla bla bla

el disse...

Um dia, quando houver menos gajas na net, arranjarei o meu tempo para ler estas merdas que escreves.

Cactus Jack disse...

Comecei a ler... li na diagonal (por consideração, apenas) e ... voltei ao trabalho. Há dias em que nem aqui se encontra refugio, dassssio!

O Puto disse...

Apesar de não usar a palavra "refogado", gostei muito.

Três Vezes Nove Vinte-sete disse...

Já cá não vinha há algum tempo.


Está mesmo fantástico, oh Juvenal. A tua capacidade de escrita é qualquer coisa de.. muito bom!!

catarina o. disse...

como leio tantas vezes "livros a metro", não imaginas o quentinho que sinto em ler textos destes.



catarina o.